
. Quem são os quinze membro...
. A delegada eleita e o dis...
No passado dia 27 de Novembro, a Assembleia de Accionistas da Prisa decidiu os nomes das pessoas que integrarão o Conselho de Administração da empresa. A entrada nos accionistas de investidores estado-unidenses (Liberty) reflecte-se na formação deste órgão. Para muitas pessoas, o grupo Prisa, e em especial a sua empresa de bandeira, o jornal El País, é um emblema da imprensa progressista. Para outros, trata-se de uma grande empresa global que serve os interesses de grandes accionistas sem que se vislumbre uma matiz de esquerda que possa alguma vez ter tido. Vejamos quem são as quinze pessoas que governarão o grupo de comunicação e talvez possamos tirar alguma conclusão sobre que linha ideológica se espera dos seus conteúdos e quem tem razão no momento de os situar editorialmente.
Comecemos pelas novas incorporações. Destacam-se as de Nicolas Berggruen e Martin E. Franklin, os dois principais accionistas da Liberty Acquisition Holdings Corporation, o fundo de investimentos que traz 650 milhões de euros para a Prisa e que terá a maioria absoluta do capital da empresa.
Nicolas Berggruen1
Nicolas Berggruen (Foto: Subhabrata Das)
Com um património a rondar os 2.000 milhões de dólares, ocupa a posição 158 na lista Forbes de 2009 dos estado-unidenses mais ricos. A imprensa qualificou-o de “sem-abrigo multimilionário”2 porque se apresenta como um executivo que não tem casa própria e vive sempre em hotéis. A realidade não é que não tenha casa, é que ele é o chefe dos hotéis. É o fundador e director da cadeia Berggruen Hotels Private Limited. Segundo a revista Business Week pertence a 24 conselhos de administração de diferentes empresas e sectores.
Berggruen é um gestor de fundos de private equity (fundos de capital privado que tomam participações temporárias no capital de empresas para obter lucro assim que amadureça o negócio ou projecto) e hedge funds (em Espanha, fundos de investimento livre, cujo objectivo é obter lucros à margem da evolução dos mercados). O seu principal braço investidor é a Berggruen Holdings, ainda que a sua actividade tenha arrancado nos anos 80 com a Alpha Investment. Possui uma fortuna de uns 2.000 milhões de euros. O financeiro nova-iorquino também tem interesses em imobiliárias e em energias renováveis. Berggruen e Franklin possuem perto de 20% da Liberty Acquisition Holdings e o resto está dividido em pequenas participações em hedge funds e empresas de investimento. Entre estas destacam-se gestoras alternativas como Millenium, First Tagle, Taurus, GLG, Glenhill ou T Rowe Price, para além de fundos como o Teachers Advisors ou o Canadian Pension Plan, o Soros Fund do milionário George Soros ou as sociedades de investimento de bancos como o Morgan Stanley, Citigroup, Deutsche Bank e Credit Suisse3.
Poucos dias depois de assinar o acordo com a Prisa, Nicolas Berggruen já toma posse das suas propriedades e publica um artigo de opinião no El País sobre a China e o Ocidente4. Mais uma prova de que os donos dos meios de comunicação têm influência nos seus conteúdos e que a autonomia informativa relativamente aos accionistas é falsa.
Em Junho de 2010, o Estado-Maior da Prisa dá instruções aos seus meios para vender a accionistas (faltavam dez dias para a assembleia geral), público e trabalhadores, a imagem de Berggruen, desautorizado como especulador pelas más-línguas. No dia 17 é entrevistado pela Cadena Ser e no domingo 20, o suplemento de economia do El País apresenta uma longa e amável entrevista5 que, com a coordenação habitual tem eco no económico Cinco Días do mesmo dia6. Por certo, a entrevistadora, Alicia González, é a esposa de Rodrigo Rato, presidente da Caja Madrid e antigo vice-presidente do governo com José María Aznar, o mundo do poder económico e mediático é muito pequeno.
Martin E. Franklin
Segundo a revista Business Week, pertence a 81 conselhos de administração de 19 indústrias diferentes. Em 2008 ganhou 3.498.438 dólares.
Martin E. Franklin (Foto: Suzy Allman/The New York Times)
Emmanuel Román
Co-director da empresa financeira de "fundos de alto risco" GLG Partners. Em 2009, segundo a Forbes7, ganhou um salário de 260.770 dólares procedente desta empresa. De 2000 a Abril de 2005, Román foi co-director do Serviço Mundial de valores internacionais Goldman Sachs International Limited. A 16 de Abril de 2010 a Comissão de Mercado de Valores dos Estados Unidos (U.S. Securities and Exchange Commission-SEC) acusou a Goldman Sachs de fraude pelas hipotecas subprime.
Harry Sloan
Presidente da Metro-Goldwyn-Mayer. O Los Angeles Times qualificou-o de maior animador da indústria do entretenimento do Partido Republicano. No ambiente predominantemente progressista de Hollywood, Sloan representa a voz republicana. Na campanha presidencial de 2008 recolheu para McCain 3,5 milhões de dólares em Hollywood numa gala na Century City8.
Ernesto Zedillo
Ernesto Zedillo (Foto: El Universal - México)
Foi presidente do México, pelo PRI, desde 1994 a 2000. A sua presidência foi marcada por uma das crises financeiras do século com repercussões internacionais, que se denominou “efeito tequilha”. O preço do dólar aumentou no México cerca de 114% entre Dezembro de 1994 e Março de 1995. Durante o seu mandato aconteceu o levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional e o assassinato do candidato presidencial Luis Donaldo Colosio.
Também durante a sua presidência se privatizou a companhia Ferromex (anteriormente chamada Ferrocarriles Nacionales de México). Quando Zedillo deixou o seu cargo tomou posse no conselho executivo de algumas empresas norte-americanas entre as que se destacam a Procter and Gamble, a Alcoa e a Union Pacific, esta última concessionária da Ferromex, a empresa que ele próprio privatizou.
Alain Minc
Publicitário francês. Foi Inspector-geral de Finanças e demitiu-se para entrar como director financeiro do grupo industrial francês Saint-Gobain.
Posteriormente foi o homem forte do empresário Carlo de Benedetti como director-geral da Cerus Compagnies Européennes Réunies.9
Em 1991, fundou a sua própria empresa de consultoria, a AM Conseil. Foi presidente do conselho de vigilância do jornal Le Monde, cargo do qual se demitiu por causa da sua relação de amizade com Sarkozy.
É membro dos conselhos de administração da Criteria Caixa Corp, a holding cotizada da La Caixa. O cargo foi-lhe oferecido pessoalmente por Isidro Fainé, presidente da Caixa, que o conhece há muitos anos. Também está vinculado ao multi-milionário mexicano Carlos Slim.
Minc assessora até quinze grandes grupos empresariais franceses e internacionais.
Juan Arena
Juan Arena (Foto: InfoEmpleo.com)
Foi presidente do Bankinter durante cinco anos, até 2007. Actualmente é presidente da Fundación Sociedad y Empresa Responsable (Seres).
Os membros do Conselho que renovam o cargo são os seguintes:
Ignacio Polanco e Manuel Polanco
Ambos filhos do fundador da Prisa, Jesús Polanco. Toda a sua trajectória foi desenvolvida na empresa do pai. Ignacio é o presidente do grupo. [Na fotografia, Manuel está à esquerda e Ignacio à direita. Foto: Gorka Lejarcegi/El País]
Juan Luis Cebrián10
Presidente da Comissão Executiva do Conselho e conselheiro delegado.
Filho de Vicente Cebrián, alto cargo da imprensa do regime franquista e director do jornal Arriba, órgão de comunicação da Falange Espanhola. A morte de Franco retirou-lhe a chefia dos serviços informativos da RTVE. Desde esse cargo passou a ser o primeiro director do jornal El País, cargo que ocupou até Novembro de 1988, quando passou a ser conselheiro delegado do Grupo Prisa.
Participou em diversas reuniões do Grupo Bilderberg. O Grupo Bilderberg, ou Clube Bilderberg, é uma conferência anual que reúne as pessoas mais poderosas do planeta. Entre os seus participantes contam-se os máximos dirigentes de instituições como o FMI e o Banco Mundial, a Reserva Federal e o Banco Central europeu, a CIA e o FBI; primeiros-ministros europeus e líderes da oposição; e presidentes das cem maiores empresas mundiais, como Coca-Cola, British Petroleum, JP Morgan, American Express e Microsoft. O conteúdo das suas conversações é secreto, pelo que são numerosas as especulações em torno dos seus planos e intenções. Houve quem lhes chamasse “os donos do mundo”.
O seu apoio a Jesús Polanco foi absoluto, e o seu papel nas manobras para conseguir que este obtivesse o controlo da Prisa, fundamental. Um dos accionistas que perdeu aquela batalha, Darío Valcárcel, definiu-o como “um néscio convertido em capataz de Jesús Polanco”11. Durante o Governo de Felipe González, Cebrián era considerado o homem do PSOE na Prisa. Ou o homem da Prisa no PSOE, dependendo do ponto de vista. O director da Interviú de então, Pablo Sebastián, conta que durante 1986, nas vésperas do referendo da OTAN convocado por Felipe González, pregunto a Cebrián: “”No tema da OTAN, vais-te colocar de joelhos perante o governo?” Juan Luis Cebrián respondeu-lhe: “Não há nada a fazer. Tu terias de dar o cu e eu uma perna”12.
Até aos últimos movimentos accionistas Cebrián possuia 0,566% das acções do grupo, sendo o membro do Conselho que tem mais acções a título individual13. Uma parte indirecta das suas acções pertence às empresas Jurate Inversiones e Sicav Sapri Inversiones 2000.
Matías Cortés
É sócio do escritório de advocacia Cortés Abogados. Conselheiro da Prisa desde 1977, membro da sua Comissão Executiva e presidente do seu Comité de Auditoria.
É também membro do Conselho de Administração da construtora Sacyr Vallehermoso, S.A.
O grupo Prisa gastou, desde 2007, 22 milhões de euros em honorários para o escritório de Matías Cortés e seus irmãos Luís e António14. O facto foi conhecido devido a que a Prisa teve que dar numerosa informação às autoridades bolsistas dos Estados Unidos para que pudessem ser incluídas no folheto prévio ao acordo de capitalização com o fundo de investimento Liberty.
Diego Hidalgo
Conselheiro da Prisa desde o ano 1982, membro da Comissão Executiva e vogal do Comité de Governo Corporativo, Nomeações e Retribuições. Também pertence ao Conselho de Administração do El País.
Durante os últimos anos do franquismo foi Chefe de Divisão do Banco Mundial de 1968 a 1977. Foi membro, nalguns casos fundador, de numerosos think-tank. Foi fundador do European Council on Foreign Relations, cujo principal patrocinador é o multi-milionário George Soros. Também é fundador, presidente e doador principal da Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Exterior e membro fundador e membro do Comité Executivo do Club de Madrid e do Club de Roma.
Gregório Marañón
É conselheiro da Prisa desde 1983, membro da sua Comissão Executiva e presidente do seu Comité de Governo Corporativo, Nomeações e Retribuições. Para além disso, é vogal do Conselho de Administração da Sogecable.
Marquês de Marañón, foi director-geral do Banco Urquijo (1975/1982), presidente do Banif (1982/1984), conselheiro da Argentaria e conselheiro do BBVA.
Actualmente é presidente da Logista, Roche Farma e Universal Music Spain. Também é membro dos Conselhos de Administração da Viscofan (vogal da Comissão de Auditoria) e da Altadis, assim como presidente do Conselho Assessor da Spencer Stuart, e vogal dos Conselhos Assessores da Vodafone, Apax e Aguirre&Newman.
Também é membro do Conselho Económico do Arcebispado de Toledo e do Conselho Social da Cidade de Toledo.
Agnès Noguera
Conselheira da Prisa desde o ano 2006, membro da sua Comissão Executiva e vogal do seu Comité de Auditoria. Também é membro do Conselho de Administração do jornal El País.
Desde 2005 é conselheira delegada da Libertas 7, S.A. (empresa do sector de investimentos e de promoção imobiliária) da qual era conselheira desde 1988. Representa a Libertas 7, S.A. no Conselho de Administração do Banco de Valência e na Companhia Levantina de Edificação e Obras Públicas.
Forma parte dos Conselhos de Administração da Bodegas Riojanas e Adolfo Domínguez (em ambas como representante da Luxury Liberty).
Borja Pérez Arauna
Conselheiro da Prisa desde 2000 e vogal do seu Comité de Auditoria. Foi nomeado director de Investimentos da Timón em 1995 e actualmente é vice-presidente da Timón, a sociedade fundada por Jesús Polanco nos anos setenta. Presidente da Qualitas Equity Partners e conselheiro da Qualitas Venture Capital. Ambas gestoras de fundos de investimento.
Parabéns aos nomeados. Ser da direcção da Prisa é um posto bem remunerado. Em 2009, os cinco conselheiros executivos da Prisa, Ignacio e Manuel Polanco, Juan Luís Cebrián, Alfonso López Casas e Emiliano Martínez cobraram 11,6 milhões de euros, nada menos que 23% do lucro da sociedade15.
Uma vez conhecidos todos eles, a pergunta é se alguém pode continuar a acreditar que a Prisa, e o jornal El País, podem ser difusores de algum tipo de mensagem progressista.
NOTAS
1. Informação procedente do livro “Traficantes de información. La historia oculta de los grupos de comunicación españoles”, Serrano, Pascual. Foca, Novembro de 2010.
2. “El nuevo socio de los Polanco es un 'homeless' multimillonario enamorado del arte”. El Confidencial, 26-2-2010 http://www.elconfidencial.com/comunicacion/nicolas-berggruen-socio-polanco-casa.html
3. “¿Quién es Liberty, el nuevo accionista de Prisa?”, Invertia, 9-3-2010 http://www.invertia.com/noticias/noticia.asp?idnoticia=2304265
4. El País, 4-4-2010 http://www.elpais.com/articulo/opinion/lineas/falla/democracia/elpepiopi/20100404elpepiopi_4/Tes
5. El País, 20-6-2010 http://www.elpais.com/articulo/economia/importante/tener/medios/calidad/elpepieco/20100620elpepieco_6/Tes/
6. Cinco Días, 20-6-2010 http://www.cincodias.com/articulo/empresas/importante-tener-medios-calidad/20100620cdscdsemp_3/cdsemp/
7. Ver http://people.forbes.com/profile/emmanuel-roman/37116
8. Los Angeles Times, 3-10-2008 http://articles.latimes.com/2008/oct/03/entertainment/et-cause3
9. Expansión, 1-9-2009 http://www.expansion.com/2009/09/01/economia-politica/1251839228.html
10. Informação procedente do livro “Traficantes de información. La historia oculta de los grupos de comunicación españoles”, Serrano, Pascual. Foca, Novembro de 2010.
11. Cacho, Jesús, El negocio de la libertad, Madrid, Foca, 1999.
12. Relato de Pablo Sebastián aos jornalistas José Díaz Herrera e Isabel Durán, recolhido no seu livro Los secretos del poder, Madrid, Temas de Hoy, 1994.
13. Prnoticias 6-3-2009 http://www.prnoticias.com/index.php/prseguridadvial/121-prisa-/10028897-cebrian-se-deja-20-millones-en-la-caida-bursatil-de-prisa
14. Segundo informou o portal de informação financeira e empresarial Capital Madrid a 4 de Outubro. Ver http://www.capitalmadrid.info/2010/10/4/0000017816/matias_cortes_cosecha_un_gran_beneficio_con_la_crisis_de_prisa.html
15. El Confidencial, 5-5-2010 http://www.elconfidencial.com/comunicacion/cebrian-polanco-consejeros-beneficio-prisa.html
Texto de Pascual Serrando publicado em PascualSerrano.Net a 29 de Novembro de 2010. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
O processo de eleições municipais em Cuba culminou no dia 19 de Maio, com a constituição das Assembleias Municipais e as eleições dos presidentes e vice-presidentes entre os recém-eleitos delegados.
Previamente a esta etapa, entre 24 de Fevereiro e 24 de Março, celebraram-se nos 169 municípios de toda a ilha milhares de assembleias de nomeação em reuniões com os residentes de cada área. A 25 de Abril tiveram lugar as eleições onde, a partir do voto secreto, foram eleitos 15,093 delegados em todos os municípios, entre os mais de 45 mil nomeados pelos cidadãos. Foram submetidos à consideração dos eleitores desde um mínimo de dois até um máximo de oito nomeados em cada circunscrição, de acordo com a lei. E nesse domingo qualquer dos candidatos devia alcançar não menos de 50% dos votos válidos para ser eleito.
Uma segunda volta teve lugar a 2 de Maio para os casos em que nenhum dos candidatos tivesse alcançado mais de 50% dos votos válidos. Nesses casos, os dois candidatos com maior número de votos avançaram para a uma segunda volta. Esta é uma situação normal que aconteceu em todos as 14 eleições municipais celebradas desde 1976. (Uma circunstância inusual ocorreu este ano, quando um candidato faleceu justamente antes das eleições de 25 de Abril e uma nova nomeação teve de ser realizada depois dessa data; os eleitores desta circunscrição foram às urnas pela primeira vez a 2 de Maio). Por todas estas razões, 14% das circunscrições (2,107) foram a uma segunda volta no dia 2 de Maio.
Nestas eleições, três circunscrições terminaram com um empate entre os dois candidatos que passaram à segunda volta e uma terceira volta teve lugar a 5 de Maio, na qual finalmente houve um ganhador em cada uma delas, completando-se assim a fase das eleições municipais parciais e assentando as bases para a etapa de constituição das Assembleias Municipais a 19 de Maio.
Foram eleitos 15,093 delegados, que podiam ter idades desde os 16 anos (idade mínima requerida para votar e ser eleito a nível municipal). É importante assinalar que exceptuando apenas uma pequena proporção (por exemplo o Presidente e Vice-presidente das Assembleias Municipais e alguns Presidentes e Vice-presidentes dos Conselhos Populares), cada Delegado realiza o seu trabalho como representante do povo que o elegeu de modo voluntário, sem receber pagamento ou remuneração de nenhum tipo, mantendo o seu emprego habitual. Em casos excepcionais nos quais se requer que o Delegado esteja dedicado a tempo inteiro à sua gestão, eles recebem o mesmo salário correspondente ao seu posto de trabalho e nem mais um centavo. A partir do princípio de que este é um trabalho não profissional, o seu trabalho como Delegado tem lugar na sua maior parte depois do seu horário laboral e durante os fins-de-semana.
Um dos aspectos mais chamativos das investigações sobre os processos eleitorais em Cuba e do seu tipo de democracia, baseia-se na questão de quem são os eleitos, quais são as suas histórias e o que fazem na sua vida política, profissional e pessoal. Estes aspectos que cativam a investigação são válidos no só a respeito dos delegados municipais, mas também, por exemplo, relativamente aos Deputados eleitos para a Assembleia Nacional do Poder Popular (parlamento). Enquanto alguns deputados são bem conhecidos em Cuba e no exterior, a grande maioria não o é, acontecendo o mesmo com quase todos os Delegados Municipais (que de acordo com a Constituição da República devem constituir até 50% da legislatura nacional). Ainda respeitante aos mais conhecidos Deputados (como Fidel Castro, Raúl Castro, Ricardo Alarcón e outros) que são conhecidos nacional e internacionalmente, podemos verificar que as suas características principais, acções e evolução histórica, fora de Cuba estão ocultas à luz pública ou aparecem completamente distorcidas ao ponto de serem vítimas de difamação.
Os cubanos em geral conhecem os seus Delegados Municipais eleitos, já que são seus vizinhos e costumam ver-se todos os dias, ou pelo menos com alguma frequência. No entanto, como consequência da desinformação dos meios de comunicação, em geral para as pessoas fora de Cuba, os Delegados eleitos a nível local aparecem envoltos num mistério: uma página em branco. Os jornalistas internacionais devem proporcionar aos não-cubanos alguns retratos sobre quem são estes 15,093 Delegados eleitos pelos cidadãos com diversos exemplos, nenhum deles exagerando as suas qualidades positivas, ou ressaltando apenas experiências negativas. Mas parece haver um esforço dos meios internacionais para esconder as realidades deste aspecto do sistema político cubano perante a opinião pública internacional. Em vez de fazerem um trabalho sério como jornalistas sobre estes Delegados eleitos que são seres humanos como você e eu, são eliminados do conhecimento da opinião pública internacional. É frequente ver como eles são catalogados em frases que os “etiquetam” como membros do Partido Comunista de Cuba (PCC) ou da ala juvenil do Partido, a União de Jovens Comunistas, com uma clara intenção de apresentar a sua nomeação e eleição como sendo condicionada por essa militância política. E nada fica mais longe da realidade.
Mais ainda, existem muitas pessoas nomeadas e eleitas como membros das Assembleias Municipais que não são militantes do Partido nem da sua ala juvenil. Por exemplo, pessoalmente eu conheço uma pessoa que não é membro do Partido, e que em todas as eleições onde foi nomeado e posteriormente eleito durante 25 anos, com os restantes candidatos sempre membros do Partido. Esta pessoa que vive no município Praça da Revolução da província da Cidade de Havana, foi nomeada e eleita como Delegado Municipal por 25 anos, foi por seu turno, Delegado Provincial durante 8 anos e Presidente do Conselho Popular durante 5 anos. Por outra parte, depois das eleições municipais de 25 de Abril o resultado total para as 15 assembleias municipais da província da Cidade de Havana, indica que só 56% dos seus delegados eleitos são membros do Partido; isso mostra por si mesmo que não é obrigatório ser membro do Partido para ser nomeado e até para ser eleito nas votações secretas nas urnas.
Neste contexto torna-se muito desagradável ler o artigo de Fernando Ravsberg, jornalista da BBC Mundo, estabelecido em Havana há muitos anos. O seu artigo intitula-se “Dissidentes cubanos em campanha eleitoral.” O tema central do artigo, publicado a 13 de Março, tal como o título sugere, refere-se ao papel de um dissidente que decidiu participar no procedimento local de nomeação de candidatos na circunscrição 47 do Conselho Popular de Punta Brava, situado no município de La Lisa, um dos quinze municípios da província da Cidade de Havana.
O artigo aparece escrito de modo que reflecte claramente a intenção de dar uma atmosfera falsa de repressão social e medo contra aqueles que não estão de acordo com a revolução mas participam nas eleições de um modo ou de outro. Por exemplo, o Sr. Ravsberg escreve que a Assembleia de nomeação local estava a decorrer tranquilamente sem sinais de “repressão”. Mas o jornalista abre as portas a qualificar nesse sentido, quando se refere à presença de um simples polícia, como sinal de um foco de “repressão. “Havia apenas um polícia em toda a área, desviando o trânsito de modo a que não interferisse com a Assembleia de nomeação que era no exterior e normalmente as pessoas ocupavam parte da rua. (Seria possível considerar pela BBC Mundo os polícias de trânsito, os “Bobbies” em Londres, como parte das “forças repressivas”?) Mais ainda, apesar do seu “moderado” comentário sobre a ausência de sinais de “repressão”, o mesmo é negado noutras partes do seu artigo quando a palavra do dissidente é tomada como verdade absoluta, e o jornalista permite que o dissidente o afirme. A intenção de manipulação volta a reluzir quando no artigo em questão uma vez mais o jornalista assume as palavras do dissidente como um facto, e assinala que o dissidente se referia a que “perto dali havia mais policias mas não os vimos”. Do mesmo modo, enquanto o artigo admite que a situação na área onde se celebrava a Assembleia de nomeação transcorria tranquila, sem aparentes pressões, no mesmo se asseverava, a partir do que lhe expressara o dissidente, que noutras Assembleias de nomeação se exerciam evidentes pressões contra os dissidentes, mas sem factos que o demonstrassem. Uma vez mais, uma alegação não sustentada saída da boca de um dissidente, era apresentada como uma verdade absoluta no seu artigo.
Eu assisti a dezenas de Assembleias de nomeação e a processos de votação secreta nas urnas durante as eleições a nível local em 1997-98, 2000 e 2007-08. Todas essas etapas do processo político cubano desenrolaram-se numa atmosfera de calma, sem sinais de repressão policial nem qualquer outro evento dessa natureza. Investigações realizadas demonstraram que esses auto-denominados dissidentes podem participar nas eleições de qualquer modo, dentro do estabelecido pelas leis cubanas, como qualquer outro cidadão na posse dos seus direitos. São provavelmente poucos os países do mundo onde os dias de nomeação e de votação são tranquilos. É certo que nós não podemos comparar as Assembleias de nomeação pois não existe outro país no mundo, para além de Cuba, onde os cidadãos tenham o direito legal de propor directamente os seus próprios vizinhos que considerem devem ser candidatos para as eleições, e de se auto-proporem. A falsa acusação de “repressão”, “forçar as pessoas a votar”, etc., são outras frases usualmente utilizadas como pretexto para evitar referir-se às pobres demonstrações vindas dos dissidentes em processos de nomeação, quando eles decidem participar.
Enquanto o Sr. Ravsberg presta atenção ao dissidente Silvio Benítez e à sua campanha eleitoral, como se fosse o centro da política cubana desse dia (ou, precisamente por esse motivo, o jornalista coloca-o no centro das notícias das eleições municipais), por que não escreve sobre a cidadã que foi nomeada e eleita pelos seus vizinhos como candidata às eleições municipais de 25 de Abril? Tudo o que teve para dizer sobre ela é que é membro de PCC, médica, e que faz parte da equipa de saúde pública da localidade. E de facto todo o artigo é escrito como se a nomeação fosse um teatro de contagem de mãos no ar para votar entre a “candidata do PCC” e o “dissidente”.
No sistema eleitoral cubano, o PCC e a União de Jovens Comunistas não propõem nem nomeiam pessoas para as eleições, só os cidadãos de modo individual têm esse direito. Com o objectivo de contribuir para fabricar uma imagem do PCC como controlador de tudo, em detrimento dos direitos dos cidadãos, ao contrário do que estipula a Constituição Cubana e a Lei Eleitoral, os comentários do Sr. Ravsberg objectivamente procuram denegrir a seguinte noção importante: a soberania reside nas mãos do povo mesmo quando os cubanos pensem que este é um aspecto que deve ser melhorado e que se deve aperfeiçoar.
De facto, o jornalista desinforma os seus leitores neste sentido, seja essa a sua intenção ou não.
No mesmo sentido, o artigo assinala que uma pessoa idosa (e que desse modo se ajusta à imagem preconcebida de um veterano “duro” da luta revolucionária) se referiu ao dissidente com o objectivo de evitar que fosse nomeado.
No dia 30 de Abril de 2010 eu entrevistei a “outra nomeada” que foi eleita como delegada no dia 25 de Abril. (Dra. Daysi Victores, entrevista gravada pelo autor, Havana, 30 de Abril de 2010.) A entrevista com a Dra. Daysi Víctores teve lugar em Havana numa agradável tarde de sexta-feira, no modesta escritório do Conselho Popular de Punta Brava. Junto a ela encontravam-se Armando Nelson Padrón Alfaro, Presidente do Conselho Popular e Juanita Mejías Carbonell, Secretária deste Conselho Popular. Este Conselho Popular, órgão de base do sistema estatal e de governo cubano, é um dos sete Conselhos Populares com que conta La Lisa, que tal como outros municípios em Cuba, se foi descentralizando deste modo com o objectivo, entre outras razões, de ser mais eficiente na solução dos problemas locais e outorgar mais poder aos Delegados eleitos, pensando sempre que a meta final nas suas agendas é a de melhorar, como afirmam sempre os cubanos.
A Dra. Daysi Víctores tem agora 66 anos de idade, nasceu em Camaguey no seio de uma família humilde. O seu pai era trabalhador e a sua mãe ama de casa.O casal teve quatro filhos. Em 1961 Daysi parte para o oriente do país onde participa na campanha de alfabetização, levada a cabo pelo governo revolucionário. Depois do regresso à sua cidade de Camaguey, ela vai para Havana com bolsa de estudo para estudar medicina. Os seus três irmãos e irmãs também estudaram e tiveram várias profissões, como posteriormente fizeram os filhos de Daysi. Ela declarou que: “se não tivesse havido a Revolução, ser médica nunca teria sido possível para a filha de uma família humilde”. Ela estabeleceu-se em Havana. Durante a sua carreira médica ocupou diversas responsabilidades, por exemplo em 1974 como Directora da policlínica em Punta Brava e mais tarde noutros centros de saúde como o de Arroyo Arenas. De facto, ela foi mandada a diversas policlínicas para enfrentar diferentes problemas que ali surgiam, relacionados com o seu trabalho ligado à saúde, e procurando solucioná-los. Mais tarde foi Vice-directora de Medicamentos no município de La Lisa, cargo no qual se reformou. Entre outras tarefas ela foi à Etiópia em missão internacionalista como profissional de saúde em 1981.
Texto de Arnold August publicado em Rebelion.Org a 24 de Maio de 2010. Tradução de Alexandre Leite.
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