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Sábado, 5 de Julho de 2008

Dois Anos Depois em Oaxaca – Parte II

Ver Parte I

 

Quais as diferenças? – Redes e Autonomia Local: O Osso da Coxa está Ligado ao Osso do Joelho

Oaxaca, México, funciona agora como um entroncamento de movimentos sociais nacionais e talvez também internacionais, de acordo com David Venegas, que já foi prisioneiro político e activista da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO).

David Venegas. Sendero

David Venegas

(Foto Nancy Davies)

As ocupações anuais por parte de membros frustrados da Secção 22 do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE), na sua greve de 2008, juntaram-se à frustração da população. A permissão para convocar uma assembleia estadual de professores para legitimar novos representantes da Secção 22 dentro do SNTE é claramente uma manobra para manietar o sindicato, e desse ponto de vista é perigosa. Com a Secção enleada pela sensaborona Elba Esther Gordillo, encorajada por Ulises Ruiz Ortiz (URO) a não dar azo a esta importante peça sindical, a tensão cresce em Oaxaca, à medida que nos aproximamos de 14 de Junho, o aniversário do movimento.

No seio da sua luta, a Secção 22 incorporou outras preocupações, particularmente a privatização da indústria petrolífera. Esta é uma tarefa legítima dos professores – eles lavram o terreno; o movimento social coloca as sementes. Dentro do plantón dos professores, prossegue a educação. Ao lado do acampamento na Alameda, decorreu outro fórum a 29 de Maio, patrocinado pela Alternativa Democrática Nacional (ADN) e pelo Partido Revolucionário Democrático (PRD).

E se vos espanta a avalanche de iniciais e de organizações, também a mim – organizações e sectores de organizações multiplicam-se como coelhos.

Salvo uma outra não impossível explosão social, as mudanças em Oaxaca respondem a esta questão:

Onde está a APPO? A minha resposta, e a diferença para os acontecimentos de 2006, são as pessoas organizadas no terreno. Uma rede de activistas espalhada por todo o estado, que são todos, de certo modo, “a APPO”. Como me contou David Venegas, quando a caravana de jovens El Sendero del Jaguar chegou a uma pequena comunidade no Istmo, em Maio, apesar dos jovens não se identificarem com a APPO (muitos não pertencem à APPO), a população dirigiu-se a eles gritando “a APPO está a chegar! A APPO está aqui!”

 

Somos Todos a APPO

O corpo principal da APPO, aqueles milhares que vieram para a rua em 2006, não estão a participar em reuniões de debates ideológicos – mas eles não desapareceram. Há uma música que diz que “o osso da cabeça está ligado ao osso do pescoço, o osso do pescoço está ligado ao osso do ombro, o osso do ombro…, ouçamos a palavra do Senhor”. Boa música. A palavra do Senhor em Oaxaca é que tudo e toda a gente estão ligados, numa cascata de acontecimentos e movimentos inter-relacionado. A APPO foi descrita como um movimento de movimentos, e agora mais do que nunca isso parece acertado.

Eu considero que ganharam raízes duas mudanças na consciência de Oaxaca. Uma envolve as redes. A sociedade civil agarrou-se à deliberada política governamental de isolamento e separação das comunidades e grupos, muitas vezes acompanhada de violência provocada pelo PRI. Essa táctica de poder está a ser discutida e atacada via comunicação entre culturas. A outra mudança é o confronto do controlo autoritário de cima para baixo. O controlo local, controlo horizontal e ganhos de autonomia cresceram, cidade após de cidade. Eles criaram desafios frontais aos caciques residentes.

Isto não é para fazer esquecer o facto de muitas organizações sociais manterem uma estrutura interna vertical, muitas consistem em pouco mais de duas pessoas, muitas têm posições conservadoras. Nem podia eu esquecer o custo em vidas: por exemplo os dois radialistas de Triqui. Nem a perseguição governamental. Apesar disso, a APPO gritava “cotovelo com cotovelo”, os movimentos sociais espalharam-se como água, muito fortes e não apenas horizontais mas respeitadores dos programas de cada um e das suas prioridades.

A Viagem do “Sendero del Jaguar”

Eu encontrei as irmãs de David Venegas Reyes quando elas estavam a tentar livrar o David da prisão. Sonya estava a juntar dinheiro, vendendo calendários. Natalya falava e viajava; ambas participaram em reuniões da APPO.

Quanto ao David, eu encontrei-o pela primeira vez num fórum público relativo aos prisioneiros políticos no dia seguinte a ele próprio ter sido libertado. Ele passou onze meses nas mãos do governo, apanhado na rua em Abril de 2007 e tramado por um rol de acusações falsas de crimes, depois novamente acusado, e acusado outra vez, até que finalmente os tribunais puseram um fim a isso e ele foi libertado.

As irmãs vivem em Oaxaca com os seus pais, e David licenciou-se numa universidade de Oaxaca como engenheiro agrícola, um diploma que ele considera agora totalmente inútil. Como ele explicou, tudo o que lhes ensinaram vinha do norte: agronegócio e químicos. David é um convicto anarquista (no melhor sentido da tradição política clássica), e um membro da VOCAL, a facção anarquista socialista da APPO. Como pessoa, ele vibra com energia, uns belos vinte e cinco anos, parecendo incansável e sem medos. Quando o encontrei pela segunda vez ele dirigia uma manifestação exigindo a libertação de outros prisioneiros.

De acordo com David, “O Caminho do Jaguar pela Regeneração da Nossa Memória” é o resultado de um trabalho colectivo de rapazes e raparigas activistas que participaram no primeiro encontro da juventude do movimento social, convocado pela APPO na sua terceira assembleia estadual. O encontro dos jovens, que decorreu em Fevereiro de 2008 na localidade de Zaachila, organizou uma caravana de trinta jovens que têm como objectivo fundamental “a reorganização do movimento social de Oaxaca.”

A 27 de Maio o jornal Las Noticias trazia um anúncio de meia página com o título “Pronunciamento Político”. Vinha assinado pela Caravana “El Sendero del Jaguar por la Regeneración de Nuestra Memoria.” Lá podemos ler:

Tal como no México e no mundo, muitas pessoas estão a lutar e a resistir ao desenvolvimento e ao progresso (neoliberal) porque elas sabem que ele só irá beneficiar uns poucos e esses poucos não são os legítimos donos da terra nem do que lá que encontra. Na região do Istmo de Tehuantepec, cidades como Jalapa del Marqués, Juchitán, San Blas Atempa, Zanatepec e Benito Juárez Chimalapas localizam-se em pontos estratégicos para o desenvolvimento de projectos como o Plano-Puebla-Panamá, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA, ou NAFTA), o Corredor Biológico Mesoamericano e a Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte (ASPAN).”

A caravana de jovens que incluía David Venegas partiu da cidade de Oaxaca a 5 de Maio de 2008, a partir da frente do edifício dos professores. O artigo/explicação de opinião de David apareceu no blogue da internet “Kaos en la Red” e no jornal Las Noticias.

 

O Movimento Social de Oaxaca: Controlo Local como Modelo Político

A compreensão pública de assuntos relativos à privatização em oposição à propriedade da comunidade – autonomia, controlo local, direitos indígenas e identidade cultural – emergiu como parte integral do decorrido em 2008. Os processos legais no Istmo contra a fraude na cobrança das empresas estrangeiras das eólicas, o falhanço na obtenção de investimento local, pagamentos de rendas injustos, bem como estudos ambientais enganadores e a não observação dos direitos indígenas. Seria um modelo para a nação se esses processos fossem vencidos e implementados. Legalmente, baseiam-se na violação da constituição mexicana, relacionado com as proibições de entregar o petróleo a investidores estrangeiros. Nas palavras do Sendero:

 

... este movimento (2006) contra a globalização não apenas tocou as portas do céu, tocou-as  como uma tempestade, o que significava que os antagonistas, ”o governador”, “o estado”, “neoliberalismo”– eram reconhecidos. As exigências eram directas, eram apresentadas por solidariedade, mas também pelo insulto e pelo descontentamento com uma economia imoral.

A APPO …sublinhou a necessidade de pensar num novo tipo de autoridade, longe de serem Pessoas a governar e Pessoas a serem governadas, e em vez disso (baseado no modelo)“mandar obedecendo”, como defendem os Zapatistas…imaginar que formas de vida lhes servem, as suas próprias crenças, ...sem repetir um socialismo autoritário…agindo com alianças onde possam totalmente apelidar-se de “comunidades”... a APPO avançou simplesmente com a ideia de voltar aos “usos e costumes” que expressa formas alternativas de posse e de fazer política, na busca de diferentes sentimentos de justiça e de autonomia para toda a gente, não apenas para alguns.”

A primeira caravana visitou cinco comunidades na problemática região do Istmo, comunidades que recebem os assaltos neoliberais. Como me explicou David, o equívoco de que os povos indígenas se opõem ao “desenvolvimento” é fundado na sua relutância em aceitar o modelo capitalista de lucro privado, o que inevitavelmente leva à ganância e a colagens individuais ao poder. Em vez disso, eles procuram um “desenvolvimento” que beneficie de forma igual toda a comunidade ao mesmo tempo, não deixando ninguém de lado.

Quanto à caravana Sendero, o objectivo era ouvir e aprender, uma tentativa para compreender. Parecem as caravanas Zapatistas, mas com uma diferença significativa. Em Chiapas, diz David, prevalece apenas um modelo, os caracoles. Mas em Oaxaca cada comunidade manifesta o seu próprio modelo, a sua própria versão de como viver a vida. Os oaxaquenhos, continuou ele, são muito mais territoriais, não apenas nas zonas rurais mas também na cidade, onde se reúnem as assembleias de colonias. “Comunidade” é pessoal e cara-a-cara.

Passaram, a 5 de Maio, 47 anos desde que a localidade de Santa Maria Jalapa del Marquez ficou submersa para criar a Barragem Benito Juárez, um feito alegadamente conseguido através de ameaças e falsas promessas – aqui não há surpresa. A população deslocada recuperou lentamente, muitos tornando-se pescadores. Em 2003 o governo avançou com a ideia de construir um gerador hidroeléctrico para a barragem. Antes de começarem os protestos, o governo dividiu a população entregando terras àqueles que votassem a favor. Apesar disso, a comunidade venceu, verdadeiramente porque houve estudos que mostraram que o projecto hidroeléctrico não era exequível. Mesmo assim os governos estadual e federal não desistiram: veio a polícia e o exército para manter a ordem.

A Barragem Benito Juárez fornece água para irrigar terrenos na Região 19 de Juchitán e Tehuantepec, entre outras localidades. Mas algo correu mal. Não há água. A refinaria da Pemex em Salina Cruz recebe a sua quota, mas depois de Abril nada chegou aos campesinos e à agricultura. Diz-se que a perda das colheitas é de 100%. À medida que os níveis de água baixam na barragem, a igreja e as casas inundadas começam a aparecer como fantasmas na terra seca gretada. A cidade de Jalapa, agora radicalizada, alerta outras cidades ameaçadas com mega-projectos semelhantes.

San Blas Atempa, local de grande repressão e assassinatos alegadamente autorizados pela cacique do PRI, Agustina Acevedo Gutiérrez, uma aliada de Ulises Ruiz Ortiz, foi visitada a 6 de Maio. As pessoas vieram para saudar os jovens Sendero, com a mulheres a falarem numa assembleia pública contra a ambígua, corrupta e criminosa mulher que é a cacique.

Em Juchitán de Zaragoza, a 7 de Maio, os Sendero encontraram-se com a Assembleia em Defesa da Terra, envolvida no confronto à instalação do Corredor Eólico. Endesa, Hiberdrola, Gamesa e Union Fenosa são as transnacionais que instalaram “La Venta I” que começou com oito geradores; agora La Venta II ocupa 850 hectares de terreno. A electricidade gerada é vendida à Comissão Eléctrica Federal. O objectivo é atingir 5000 geradores em mais de 3000 hectares de terreno anteriormente usados para a agricultura e o pastoreio.

Há uma década atrás na bela paisagem de Oaxaca, bois cor de creme pastavam ao lado da estrada da lagoa, uma visão de sonho e paz. Os geradores eólicos não são feios, e a saldo positivo da energia limpa é evidente. Mas não é assim tão simples. O barulho dos geradores afasta efectivamente todos os seres vivos. La Venta IV está projectada para mais 2300 hectares – em terras zapotecas. Os protestos resultaram em 76 ordens de detenção.

Os Sendero também visitaram a rádio comunitária de Juchitán, “Radio Totopo”, que debate quer em língua zapoteca quer em espanhol, os problemas das várias comunidades do Istmo. A vizinhança sustenta o pessoal da Rádio Totopo com alimentos e bens necessários. Outra campanha de resistência formou-se contra a Wal-Mart e os seus super-mercados Aurrera. A rádio comunitária funciona como mais um laço de união.

A 8 de Maio a caravana chega a Benito Juárez, em San Miguel Chimalapa. Esta comunidade protege a selva da exploração e da entrega de concessões. Fica na fronteira com Chiapas. O governo de Chiapas começou há 40 anos atrás a fazer concessões para o corte de madeira e enviou os chiapanecos para se instalarem aí. Os governos encorajaram batalhas entre os recém-chegados e os residentes. Por si próprios, os grupos rivais reconheceram que respeitavam os mesmos princípios de
manutenção do ambiente natural. Numa das primeiras vitórias ambientais, o território Chimalapa, cheio de bosques e floresta virgem e com uma riqueza aquífera e biológica imensuráveis, fez recuar o governo e as suas comissões. As pessoas mantêm a zona.

Como nota, lembro que no meio das guerras da geração de electricidade, estes territórios Chimalapa não são servidos por electricidade. O território pertence legalmente a Oaxaca; os dois governos concordam na privatização das terras outrora de propriedade comum, à medida que continua o implacável assalto neoliberal.

A caravana terminou a sua primeira excursão a 14 de Maio. No último dia, a polícia ministerial de Zanatepec parou e revistou a caravana numa zona rural, longe de qualquer população. De acordo com os porta-vozes da caravana, os polícias apareceram dos montes para os ameaçar. Independentemente disso, a "reorganização" da APPO, isto é, da população de base, continua, com laços a serem criados. Os jovens do Sendero, com idades entre os 14 e os "velhinhos" vintes, planeiam visitar todo o estado, região a região. Como me disse o David, eles não precisam de falar com as organizações civis, que já têm as suas próprias agendas. Eles ouvem as pessoas indígenas, os camponeses, os que tentam preservar as suas vidas e as suas visões. Eles aprendem o que há de tão único sobre Oaxaca, que inspira o mundo.

 Ver Parte I

 

Texto de Nancy Davies publicado pela Narconews a 2 de Junho de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Narconews.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Dois Anos Depois em Oaxaca

Quais são as diferenças?

 

Parte I

 

Ninguém aqui em Oaxaca diz que as coisas estão melhores. Eu estou a tentar assinalar o que é diferente, e sendo diferente, para onde poderá ir. É tudo uma questão de atitude, e comentando a existência subjectiva de uma atitude diferente fico aberta a contestação e desaprovação. Mas penso que vou tentar.

Seguidamente apresento o meu esboço daquilo que mudou desde a repressão brutal em 2006 dos cinco meses de controlo da cidade de Oaxaca por parte de movimentos sociais. O “movimento social”, não confundir com o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE) ou com a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), reside na população procurando mudanças. Está viva e com saúde. Vive em todas as oito regiões do estado, fortemente situada dentro da sociedade civil e organizações não governamentais.

Muitos aspectos do movimento social prosperam de formas que eu nunca antes vi, especialmente sob a forma de organizações locais e batalhas locais. Um exemplo é o processo legal no Istmo contra o complexo internacional de energia eólica construído em terras indígenas. Outros exemplos ambientais incluem lutas contra a posse estrangeira de minas e projectos relacionados com a água.

Actualmente o exemplo mais destacado é a participação no movimento nacional de diálogo público, sobre o tema da privatização da PEMEX, a produtora mexicana de petróleo. Um assunto nacional, sim, mas Oaxaca tem Salina Cruz, a grande cidade petrolífera na sua costa sul. Em Oaxaca, as pessoas juntaram-se pela primeira vez no movimento de 2006 para discutir política pública, e estão a fazê-lo no presente.

Na segunda-feira, 26 de Maio, o fórum público da cidade de Oaxaca (entre centenas de fóruns por todo o estado) para discussão da “Reforma Energética”, (significando privatização do petróleo) decorreu na Casa da Cidade às 10 da manhã. As instituições patrocinadoras são da sociedade civil: Sinergia, Serviços por uma Educação Alternativa (EDUCA), Instituto para o Desenvolvimento da Mulher de Oaxaca (IDEMO) e o Centro de Assistência do Movimento Popular (CAMPO). Como disse o deputado federal do Partido Revolucionário Democrático (PRD), Othón Cuevas, “Com esta reunião de hoje, Oaxaca está a enviar uma mensagem a todo o México: os oaxaquenhos querem agir como cidadãos e não mais como súbditos. Eles querem produzir algum efeito antes das coisas acontecerem e não cruzar os braços perante decisões impostas do alto do poder. Este fórum também representa a exigência de uma sociedade que com justas razões se sente a cada momento menos representada pelos seus governantes e legisladores, e em consequência, quer fazer ouvir a sua voz.”

Fórum Oaxaca

Audiência no fórum. Foto de Nancy Davies.

Fórum Oaxaca

Participante no fórum. Foto de Nancy Davies.

 

Estas discussões públicas por todo o México, e no estado de Oaxaca, aparecem instigados por Andres Manuel Lopez Obrador, o “derrotado” candidato presidencial do PRD e líder da campanha anti-privatização. Lopez Obrador veio a Oaxaca na terça-feira, dia 20 de Maio. Ele falou para cerca de 1200 pessoas num evento “só para convidados” no Hotel Mision de Los Angeles. Ele recrutou centenas delas em “brigadas” para irem porta-a-porta para recolher assinaturas em oposição à privatização, e dezenas para dirigirem os fóruns estaduais.

O Partido Revolucionário Institucional nacional dividiu-se em linhas de apoio, ou não, à iniciativa de “reforma” petrolífera do Presidente Felipe Calderón. Nos apoiantes está o nosso governador Ulises Ruiz Ortiz (URO), que está em dívida com o Presidente Calderón por este o ter mantido no gabinete. Mas as coisas mudam. Quando URO estava em apuros, também Calderón estava, que mal conseguia controlar o seu Partido de Acção Nacional (PAN) e necessitava do PRI para votar com ele no congresso. Agora Calderón já tem o controlo. Entretanto uma facção do PRI, encabeçada pelo antigo amigalhaço Roberto Madrazo e por Beatriz Pagés, opõe-se à reforma da energia “porque é anticonstitucional”, e de facto é. (A divisão reflecte o conflito interno no PRI, como escreveu Heraclio Bonilla Gutierrez no jornal Noticias, “como nas famílias da Máfia sicialiana”.) Com a divisão no PRI em relação à privatização do petróleo, Calderón tem pouco a ganhar apoiando URO. Para além disso, as actividades criminosas de URO criaram um embaraço internacional, especialmente desde que começaram a circular informações sobre a provável culpa do braço executivo de URO (leia-se braço de “executores”) no estado de terror.

O discutível poder de URO diminuiu quando uma fuga de informação chegou à polícia federal. A primeira fuga veio de um general reformado, Juan Alfredo Oropeza Garnica; seguindo-se outros de posição inferior no gabinete do procurador-geral. As informações implicam claramente o braço direito de URO, Jorge Franco Vargas que era Secretário do Governo de URO quando URO andava a fazer campanha na falhada candidatura presidencial de Madrazo. Franco Vargas foi implicado em dirigir os esquadrões da morte, bem como em tortura e desaparecimentos nos crimes contra a humanidade perpetrados durante 2006. Pior ainda para URO, Franco Vargas está implicado no desaparecimento forçado, em 2007, de dois homens do Exército Popular Revolucionário (EPR), que reclama a responsabilidade pela destruição de oleodutos como retaliação. O EPR está agora a “regatear”; discutindo a situação com Calderón. URO, que apenas pode dizer que Franco Vargas agiu sem o seu conhecimento ou as suas ordens, está a transformar-se numa questão nacional e internacional.

Noutro “sinal” do declínio de URO, o Supremo Tribunal do México aceitou um processo de acusação de pedofilia que tinha sido rejeitado por tribunais de Oaxaca. O caso foi trazido pela mãe de uma criança de quatro anos que foi assediada num jardim infantil privado, alegadamente por membros da “núcleo” de amigos de URO. A não aceitação por parte do tribunal de Oaxaca indicia que URO, ou Franco Vargas, está a proteger os pedófilos. Mães unam-se! Esta mãe particularmente indignada não desiste. Mulher da cómoda classe média, ela é no entanto mais uma pessoa radicalizada por URO – ela inclui toda a repressão de 2006-2007 quando o ataca. Isto agrava a perda de poder de URO, porque embora algumas pessoas tolerem assassinatos, poucas toleram pedofilia.


 

O Movimento Nacional pela Defesa do Petróleo pode ter um papel na próxima eleição

Mas continuemos. A parte excitante é que o povo está a organizar ele próprio a oposição à privatização da PEMEX. Sendo cínicos, podemos colocar isso na mesma categoria dos protestos anti-guerra que são normalmente galgados pelos governos – mas eu sublinho o contexto de Oaxaca: um estado como muitos outros no México onde a guerra suja aterroriza a população.

Mais de 150 pessoas apareceram no fórum da cidade a 26 de Maio, uma segunda-feira, dia de trabalho, para discutir a privatização da energia. A organização do fórum deu as palavras iniciais de apresentação a quatro políticos: o deputado federal do PRD, Othón Cuevas: o senador federal do PRI, Adolfo Toledo Infazón; o senador federal do Convergência, Alberto Esteva Salinas; e o secretário-geral estadual do PAN, Carlos Moreno Alcantara. Toledo Infazón opõe-se forte e frontalmente à privatização. Esteva Salinas do Convergência estava de fatinho, mas disse as coisas certas. Carlos Morenos Alcantar argumentou que o plano de Calderón “não é uma privatização”, mas é sobre a posição do México no mundo actual. Preocupando-nos com os nossos netos, disse ele, temos de ter um plano de “recursos estratégicos para defender o capitalismo, e não termos mais governo do que o necessário.” Ele disse isso. Não estou a brincar. Os aplausos furam curtos. As suas palavras dão azo ao boato comum de que Calderón foi eleito com o dinheiro do petróleo da Exxon e da Chevron, que esperam que ele lhes pague o favor.

Com vigor e espírito, Cuevas respondeu declarando que o México e o seu petróleo não podem servir para defender os interesses dos EUA que estão a desbaratar milhões no Iraque, tentando controlar o petróleo iraquiano. A audiência respondeu com questões, e depois de um intervalo intelectuais e académicos disseram de sua justiça, seguidos novamente por participação do público. Os verdadeiros detalhes da artimanha da PEMEX (o termo artimanha é meu, é difícil acreditar que uma empresa que ganha mais de 100 dólares por barril de petróleo, não consegue reparar os seus próprios oleodutos ou pagar os seus próprios poços de águas profundas) foram explicados e expostos, no que representa provavelmente um dos mais profundos exemplos de educação pública no México, e em contradição directa com o que passa na televisão nacional.

Coincidentemente, a 19 de Maio, a Secção 22 do SNTE iniciou mais uma vez o seu acampamento anual de 21 dias para sublinhar as exigências de renovação do contracto com o sindicato. Mais uma vez, eu fui ver, bem como turistas e residentes, uma maravilhosa combinação de organização, desafio, e propaganda inteligente.

A época das chuvas em Oaxaca está a chegar, e os vendedores, sem impedimentos de ocuparem o zócalo [praça central da cidade] e as ruas à volta dele, apresentaram bonitos e práticos produtos. Mantas eram desdobradas e trazidas para as lojas, joalharia feita à mão e artesanato em barro estavam disponíveis para os turistas.

O plantón (acampamento) estende-se por 15 ruas. As exigências do sindicato, para além das exigências económicas e de educação, também incluem a liberdade para os prisioneiros políticos, anulação das ordens de detenção, e restaurar o controlo por parte da Secção 22 das escolas da Secção 59 e do PRI. Até agora não tem havido muitas respostas governamentais às exigências de pequenos-almoços, uniformes e sapatos, instalações sanitárias, cozinhas comunitárias ou material básico para as 13500 escolas de Oaxaca. A Secção 59 ainda detém escolas, e os confrontos continuam.

Acampamento de professores em Oaxaca

Acampamento da Secção 22. Foto de Nancy Davies.

 

Dois anos depois do mega-acampamento ainda não faz sentido criticar a qualidade da educação, formação e preparação de professores, porque este falhanço – este grande falhanço do governo – em Oaxaca atravessa todos os sectores. Uma maior proporção de professores da Secção 59 sem nenhuma experiência de sala de aula nem graus académicos é apontada pela Secção 22, que eles próprios irão brevemente perder a sua capacidade de distribuir os seus lugares de professores, com ou sem as mesmas qualificações. Mas o problema é tão amplo que torna necessário às escolas estatais normais, que empregam professores da Universidade Autónoma Benito Juarez de Oaxaca, darem aulas de pedagogia aos professores em greve, aos fins-de-semana no zócalo. Estes professores não têm diplomas universitários; na realidade, eles são aprendizes de professores.

No momento em que vimos pela primeira vez as cores e o movimento do plantón de 2008, no meio da nossa excitação nenhum de nós comentou quem eram os vendedores. Agora afirma-se que eles são promovidos pelo PRI, no mesmo jogo de espiar, vender e contar como os seus antecessores do PRI em 2006. Para além da infiltração, eles também servem para bloquear o acesso aos cafés à volta do zócalo, provocando mais queixas amargas contra os professores por parte de proprietários de restaurantes e cafés. Eu gostaria de comentar as mundanças, mas como posso eu deixar de lado este pequeno facto: a infiltração, de acordo com a opinião do jornal Las Noticias, representa o trabalho que está a ser feito por Jorge Franco Vargas, o infame “El Chucky”, mesmo estando ele sobre investigação de assassinatos, esquadrões da morte, raptos e desaparecimentos e tortura de activistas dos movimentos sociais em 2006. Dois anos passaram, e eu estou em frente ao meu computador a tentar apontar o que mudou. Raios!

Aqueles de nós que viveram Oaxaca, 2006, sentem um ligeiro dejá vú, apesar do tamanho da ocupação de professores ser modesta em comparação com a desse ano: os professores estão a acampar em rotação, vindo das oito regiões do estado. A cortesia (ou será precaução?) parece mais pronunciada. Os comerciantes que sofreram perdas financeiras em 2006 pedem educadamente que os professores não bloqueiem os acessos, mas com a rotação das regiões essa cortesia dissipa-se. O que os professores tentam evitar, os comerciantes conseguem. E como ninguém consegue esquecer (e muitos não conseguem perdoar), a atmosfera de 2008 também gera preocupação. A Polícia Ministerial circula no centro em carrinhas, mas não se vêem polícias no zócalo, onde os passeios estão ocupados e as mesas dos cafés permanecem vazias.

Acampamento de professores em Oaxaca

Acampamento da Secção 22. Foto de Nancy Davies.

 

A Secção 22 continua a ser o braço forte do movimento social, com cerca de 65 mil trabalhadores da educação. É o dinheiro recebido por 70 mil professores (incluindo a Secção 59) que faz movimentar a máquina da economia de Oaxaca, (ao contrário dos dólares do turismo, que em grande parte não permanecem a nível estadual). O dinheiro dos professores, perdido, deu muito prejuízo; o salário retomado e melhorado beneficia toda a economia de Oaxaca. Os salários dos professores (re-zonificação) estão sempre em discussão. Por esta altura, parece provável um acordo razoável, dentro das próximas duas semanas, entre o governo e a Secção 22 por causa de ameaças de mais desordens. O sindicato controla postos de portagem na auto-estrada, bloqueia o acesso ao aeroporto e a edifícios fora da cidade, e conduz actividades normais de greve.

A mudança mais evidente para mim não são as ocupações relativamente pequenas da Secção 22. As verdadeiras mudanças estão na resposta a esta pergunta: Onde está a Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca (APPO)? Quem é o maior jogador em campo? A minha resposta, e a razão por que eu vejo uma diferença pós 2006: as pessoas organizadas.

 


Texto de Nancy Davies publicado na NarcoNews a 27 de Maio de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a NarcoNews.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

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