WTC7

.posts recentes

. Uma Época de Descanso

. Porcaria de eleições

.pesquisar

 

.Arquivos

.subscrever feeds

blogs SAPO
Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Uma Época de Descanso

É correcto e necessário de todos os homens tenham trabalho para fazer e que valha a pena fazer, e que seja agradável de fazer; e que seja feito em condições que não o tornem cansativo nem ansioso de mais.” — William Morris, ‘Art and Socialism’.

Li pela primeira vez quando era um adolescente, o livro “News from Nowhere” [Notícias de Lugar Nenhum], de William Morris, a sua história futurista de um ‘regresso’ a uma visão idealizada de uma sociedade pré-capitalista, parte feudalismo, parte socialismo agrário, e talvez estranhamente, também o li como uma história de ficção científica.


Há muito enjeitado pelos marxistas ‘puristas’ como impraticável, à luz do facto de que até mesmo a versão socialista original da sociedade industrial já não ser mais viável do que a capitalista, talvez seja altura de reconsiderar a visão alegadamente utópica de Morris. E de qualquer modo, já podemos ver a formarem-se esboços de um certo tipo de economia de pequena escala, cooperativa, comunitária, de pequeno comércio, emergindo nas costas da revolução das tecnologias de informação (excluindo obviamente a área corporativa/estatal) que tem muito em comum com a visão de Morris. ‘Só’ falta é livrarmo-nos do capitalismo corporativo e da sua classe política dirigente parasitária.


Tal como alguns dos seus companheiros socialistas e outros não tão socialistas, Morris horrorizava-se com a destruição da paisagem física da Inglaterra e da sua história cultural por um frenético capitalismo vitoriano e procurou refúgio na ideia de uma sociedade remota, mais simples, principalmente agrícola e artesanal.

 

Na realidade, o próprio negócio de Morris era definitivamente capitalista e, obviamente, os seus clientes eram exclusivamente da classe média/alta, mas isso reflectia também a natureza da sua época.

 

Apesar de tudo, a natureza da produção da sua empresa (a Firma) era altamente qualificada e sustentável, empregando tecnologia moderna apenas quando necessário. O leque de saberes envolvido tinha séculos de antiguidade; trabalhos de madeira, cerâmica, tecelagem, tingimento, tipografia e técnicas de construção tradicionais, sendo acrescentado o uso de algumas máquinas e ferramentas, a emergência de uma indústria química, e obviamente a força do vapor e a geração eléctrica em vez da força muscular.

 

 

Papel de parede de William Morris

Um papel de parede de Morris

 

Mas até o uso da força do vapor ou da água era sustentável e auto-suficiente, usando tecnologias que estavam disponíveis há séculos. Empreendimentos sustentáveis e de pequena escala eram um pré-requisito indispensável para a sua visão de uma economia socialista alternativa.


Mas Morris não tinha ilusões sobre a necessidade de uma revolução (ele previu 1952 como o ano da Revolução), escrevendo em 1895,
Analisei o assunto de cima a baixo, por dentro e por fora, e garanto que não consigo ver como é que a grande mudança que tanto esperamos possa chegar sem algum tipo de alvoroço e sofrimento … Poderemos escapar a isso? Temo que não. Estamos a viver …numa época em que há combate entre comercialismo, ou o sistema de desperdício imprudente, e comunismo, ou o sistema de amistoso senso comum. Pode esse combate ser travado… sem perdas e sofrimento? Dolorosamente falando, eu sei que não.”— ‘What We Have to Look For’.

 

Também não tinha aversão à fábrica em si, reconhecendo que as máquinas tinham o potencial para fazer o trabalho pesado e que até o trabalho repetitivo seria,
tornado atractivo pela consciência da utilidade … É bem certo que o trabalho pode ser organizado de forma a que nenhuma relação social  possa ser mais maravilhosa do que a comunhão num trabalho com esperança; amor, amizade, afectos familiares, podem ser acelerados por ele; aumentado o gozo e diminuída a tristeza.” – ‘Why Not?’, Justice, 12 de Abril de 1884.


A fábrica no Socialismo seria transformada num centro de “actividade intelectual”,
para além de produzir bens úteis para a comunidade, dará aos seus trabalhadores um trabalho leve em duração, e de tipo não opressivo, educação na infância e juventude, ocupação séria, relaxamento divertido …lazer…com uma envolvência bonita, e com o poder de produzir beleza que certamente será procurada por aqueles que tenham lazer, educação e uma ocupação séria.” — ‘A Factory as It Might Be’, May Morris II.


No Socialismo o papel da maquinaria é transformado,
Com o fim da produção de bens inúteis, quer os nocivos luxos para os ricos, quer os fracos desenrasques para os pobres, teremos as máquinas outrora usadas para mera obtenção de lucro agora usadas para poupar trabalho humano.” — ‘A Factory as It Might Be’, May Morris II.

 

Não é esta uma visão de uma alternativa sustentável à loucura, à irracionalidade do capitalismo corporativo onde a produção é guiada pelo desejo de lucro independentemente do custo para a Humanidade e para o planeta?
Não é este o ponto onde os Verdes e os Vermelhos se encontram?

O aparecimento de um capitalismo corporativo gigantesco, já uma realidade no tempo de Morris, atingiu agora o seu nadir e podemos observar o seu atroz resultado espalhado pelo planeta, escravizando todos na sua impiedosa influência e ameaçando a existência da Humanidade.

Depois de século e meio de luta falhada da Esquerda em todas as suas formas, caiu-se ultimamente numa oposição, em grande medida não política, apontando o caminho em frente, os Verdes, ficando portanto a questão: como juntar estas duas correntes de pensamento para conseguir uma Revolução Socialista?

Eu entendo que as sementes já estão lançadas apesar de numa forma fragmentada e despolitizada, assemelhando-se muito à análise de Morris, isto é, um desejo nostálgico de um passado imaginado como uma espécie de ruralidade edílica. A televisão britânica está cheia de programas que exploram este desejo de uma vida mais simples, sem confusões, e sustentável, claramente espelhando uma sociedade cujos membros estão infelizes e insatisfeitos com uma vida dominada pelo consumo e escravizados pela dívida aos bancos.
Mesmo no tempo de Morris a houve uma batalha entre Reforma e Revolução e que foi vencida pela ala reformista da esquerda, personificada até hoje no Partido Trabalhista e nos sindicatos reformistas. O argumento de que a Reforma faria evoluir o capitalismo para algo que se assemelhasse ao socialismo falhou obviamente. De facto, andámos para trás, até ao tempo do imperialismo de rapina e de pirataria que tem mais em comum com o século XIX do que com o XXI.

Seria agora uma boa altura para reinventar o sonho de Morris, fazer surgir uma ‘Época de Descanso’ da escravidão do capitalismo corporativo. Pode isso ser feito? Claro que pode. Hoje em dia possuímos uma maior compreensão da Natureza e das suas interligações do que Morris teria reconhecido, mas tal como Morri percebeu há mais de cento de vinte anos, é necessária uma Revolução Socialista para concretizar essa sonho.

 

Como prova da justeza do ”News From Nowhere” basta-nos olhar para o que Cuba está hoje a fazer, apesar de isso ter sido forçado no seguimento do colapso da União Soviética. Agricultura orgânica urbana que é capaz de alimentar toda a população com alimentos saudáveis e naturais; um sistema de educação direccionado para o desenvolvimento de todo e qualquer indivíduo; um sistema de saúde que não fica atrás de nenhum outro no planeta.

 

Se Cuba pode fazê-lo, apesar de mais de quarenta anos de embargo, sabotagem e isolamento por parte dos seu arqui-inimigo, os EUA, pensem o que um país como o Reino Unido poderia fazer! Nós temos uma população com bastante formação, muita riqueza sob a forma de infra-estruturas desenvolvidas, uma rede de comunicação sofisticada e, acima de tudo, uma crescente vontade de mudança.

 

 

 

Texto de William Bowles publicado 17 de Setembro de 2009 em Creative-i. Tradução de Alexandre Leite.

 

Para saber mais sobre William Morris ver artigo na Wikipedia.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
link do post | comentar | favorito
Sábado, 28 de Abril de 2007

Porcaria de eleições

No próximo dia 27 de Maio voltamos a viver a “festa da democracia”. Trata-se de eleições municipais e forais na Hego Euskal Herria [País Basco ‘espanhol’]. Umas eleições nas quais parte do povo depositou as suas ilusões, sobretudo em Nafarroa, perante a possibilidade de uma mudança de governação. Por isso, estas eleições estão viciadas desde o princípio, já que não cumprem nem o mínimo democrático de que todas as opções possam ser eleitas.

 

Um sector importante da sociedade basca, a esquerda abertzale [nacionalista], fica de fora ou tem que fazer verdadeiras piruetas legais para poder participar neste processo eleitoral. Com a manutenção da ‘Lei dos Partidos’ impede-se a acção política da esquerda abertzale, tanto na sua expressão orgânica partidária como na sua expressão sociológica. Este sector democrático popular tem impedimentos a fazer a sua política sem ser perseguido, com a negociação dos direitos constitucionais de associação, expressão, reunião, etc. É uma situação que nem sequer se ajusta ao que formalmente se entende ser uma democracia burguesa.

 

As actuais eleições acontecem num momento determinante para o futuro imediato do nosso povo. Encontramo-nos na Euskal Herria [País Basco] no impasse de um processo que pode supor um novo marco político-institucional e de abertura de espaços democráticos. Esse futuro é examinado nas presentes eleições, ou melhor, na medida em que estas eleições sejam mais ou menos democráticas.

 

É, neste momento, que vemos a urgente necessidade de apoiar a presença da esquerda abertzale nestas eleições e a necessidade de apoiar as suas candidaturas, assim como todas aquelas candidaturas populares e democráticas que abram canais para a participação do povo na tomada de decisões e que se manifestem claramente pela derrogação de leis que atentam contra a soberania popular e as expressões democráticas populares, neste caso, a lei dos partidos.

Perante isto, como comunistas revolucionários mantemos o princípio de que as eleições burguesas não são umas verdadeiras eleições nas quais possamos decidir sobre o nosso futuro. Esta democracia apenas o é para as classes abastadas, em nenhum momento se questiona nem o modelo político-social nem o económico, baseado na exploração de amplas camadas da sociedade, as classes trabalhadoras, na opressão dos povos do ‘terceiro mundo’ e a destruição dos recursos ambientais para melhorar os benefícios de alguns. A democracia da sociedade capitalista é uma fraude. É democracia para a burguesia, mas é uma ditadura implacável para o proletariado e as massas.

À margem da ilegalização da esquerda abertzale, nas presentes eleições temos também as pessoas imigrantes que não têm direito a voto nem a ser eleitas como candidatas. Têm ‘direito’ a ser exploradas mas não a participar das decisões políticas que se vão repercutir no seu futuro.

 

Perante a farsa democrática, os comunistas revolucionários têm um modelo alternativo de sociedade. Um modelo que o povo tem de conquistar pois é certo que a oligarquia não o vai aceitar, por muito que se ganhe na justa luta eleitoral. Um modelo que eliminará a loucura de ‘pôr a ganância à frente’ e colocará o povo à frente da sociedade, da política e da economia.

 

Na Euskal Herria, esse modelo passa pela revolução socialista e a criação de um Estado socialista basco independente do imperialismo. O direito de autodeterminação do povo basco é o ponto de partida para uma nova Euskal Herria socialista que servirá, para além disso, de base de apoio a outras revoluções socialistas e lutas de libertação nacional.

 

Na nova sociedade socialista que propomos, as classes trabalhadoras não sentirão que o sistema económico é algo estranho, misterioso e dominador para o povo. Pelo contrário, serão os seus amos e irão transformá-lo conscientemente em função dos interesses populares: direito ao trabalho, habitação, alimentação, serviços de saúde, fruição cultural e solidariedade em apoio de outras lutas emancipatórias como parte da Revolução proletária mundial.

 

O nosso projecto para a nova Euskal Herria precisa da real implantação do povo em todas as decisões, já que todas lhe dizem respeito. Não basta organizar eleições de quatro em quatro anos nas quais, ganhe quem ganhar, nada se altera para as classes populares, pois continuam a ser exploradas pelas classes detentoras dos meios de produção. O nosso modelo político baseia-se em processos de assembleia a todos os níveis, de forma a promover a mais alta participação das massas, desde o nível local, de bairro ou fábrica, até ao mais alto, a nível nacional.

 

É o momento de acumular forças em prol de uma organização proletária revolucionária que guie o povo basco à sua libertação. É o momento de não ceder os poucos espaços de ‘liberdade’ que nos dá esta ‘democracia’. Por isso, há que fazer uma oposição mais forte do que nunca à ignomínia que a oligarquia espanhola nos impõe através do seu Estado, que é a lei dos partidos.


 

Texto da autoria de Gustavo Beramendi publicado em Kimetz em Abril de 2007. Traduzido por Alexandre Leite.

 

publicado por Alexandre Leite às 18:56
link do post | comentar | favorito

Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Crise Alimentar

A maior demonstração do falhanço histórico do modelo capitalista



Em solidariedade com a ACVC

Camponeses perseguidos na Colômbia

"Com a prosperidade dos agrocombustíveis, a terra e o trabalho do Sul estão outra vez a ser explorados para perpetuar os padrões de consumo injusto e insustentável do Norte"



Investigando o novo Imperialismo

↑ Grab this Headline Animator


.Vejam também:

Associação de Solidariedade com Euskal HerriaManifesto 74
Sara Ocidental Passa Palavra
XatooPimenta NegraO ComuneiroODiárioResistir.InfoPelo SocialismoPrimeira Linha
Menos Um CarroJornal Mudar de Vida
Blogue OndasBioterra





InI Facebook

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.