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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

E ao oitavo dia...

Os americanos aterraram, ou como se costumava dizer sobre as tropas especiais no Reino Unido, durante a Segunda Guerra Mundial, ‘estão bem comidos, bem amados, e bem perto’. Então agora, apesar de alertas de que o lançamento aéreo de mantimentos poderia causar tumultos, no oitavo dia desta catástrofe (a que a BBC continua a apelidar de “catástrofe humanitária”) os EUA decidiram agir.

Há quatro dias atrás deparei-me com este correio electrónico reproduzido no excelente Military Resistance:

 

15 de Janeiro de 2010 — De: Mike Howells [Nova Orleães] via Military Resistance

“A Casa Branca anunciou hoje que excluiu os lançamentos aéreos directos porque ‘Iriam causar tumultos e roubos’”

 

Cismando com o horror que se está a viver no Haiti sinto-me obrigado a perguntar porque é que as forças posicionadas para o fazerem se estão coibir de fazer lançamentos aéreos em massa de alimentos, água e medicamentos básicos nas áreas mais devastadas do país? É bastante claro que a devastação provocada pelo terramoto colocou muitos obstáculos ao fornecimento de ajuda de emergência por camião, automóvel ou a pé. Então, porque não largá-los pelo ar em massa em áreas inacessíveis excepto pelo ar? É verdade que alguns mantimentos se iriam estragar com a queda e que algumas coisas seriam monopolizadas por açambarcadores sem escrúpulos. Mesmo assim penso que muitos dos sobreviventes do terramoto beneficiariam enormemente com o lançamento aéreo de alimentos e medicamentos. Como sobrevivente do Katrina em Nova Orleães, depois da tempestade questionei-me muitas vezes por que razão as autoridades se tinham recusado a largar aqui alimentos por via aérea no pico da crise. Os lançamentos aéreos de comida e de água ter-me-iam dado, e seguramente a muitos outros sobreviventes no terreno, um incentivo tanto material como emocional. Mas pelos vistos o bem-estar dos que estão em zonas de crise não parece ser um assunto que preocupe muito os que estão a gerir este país.

 

Então o que mudou? Bem, nada. Os EUA gostariam que nós acreditássemos que é puramente por razões de segurança e os meios de comunicação deram eco servilmente a essa ’linha’, de que é tudo por causa da ‘segurança’, ou nesta ofuscada terra, o que decidiram chamar de Saúde e Segurança:

 

Atirar de pára-quedas pacotes de alimentos e de água para o Haiti tornou-se viável pela primeira vez na segunda-feira, em parte porque já há tropas suficientes para identificar um local seguro para as largar, de acordo com oficiais da Força Aérea envolvidos no planeamento da missão.” — ‘EUA lançam 14,000 refeições no Haiti’, USA Today, 19 de Janeiro de 2010

 

Identificar locais para largar os mantimentos sem aleijar ninguém? Não gozem comigo, que argumento ridículo! Então durante oito dias, os EUA não usaram a melhor e mais prática forma que o mundo tinha para ajudar por não encontrarem um campo plano vazio. É outra vez o Katrina! Foi claro desde o primeiro dia que o tremor de terra afectara o Haiti muito mais do que outro país qualquer incluindo os que tiveram sismos ainda maiores. Para começar ele destruiu um estado já ineficaz, por isso não tinha meios para mobilizar os recursos que ainda tivesse. Para além disso, com literalmente um terço de toda a sua população, de dez milhões, directamente afectado, concentrados que estavam numa área, foi como se todo o país, incluindo o seu porto, tivesse sido destruído. A imagem é a de três milhões de pessoas de um momento para o outro rodeados de escombros e de cadáveres, tudo destruído num piscar de olhos. Horrendo.

 

Não são precisos oito dias para perceber isto.

 

Ficou claro desde o primeiro dia que as preocupações do Ocidente foram quase fanaticamente e apenas a ’segurança’. Isto implica colocar homens no terreno (e não no ar à procura de um terreno livre), e agora que já fizeram isso, os marines aterraram, e não pela primeira vez. É ridículo sugerir que os militares dos EUA não conhecem os cantos à casa como sugere o jornal USA Today.

 

 

Terramoto Haiti Cartoon

Cartoon de Adam Zyglis, The Buffalo News

 

E os EUA estão bem cientes de que não querem que isto pareça uma invasão armada (Hã!? Com um enorme porta-aviões, o Vinson, ancorado na costa, e com todo o tipo de helicópteros a circularem no ar?), mas é isso que se passa. Faz lembrar a resposta do governo dos EUA ao Katrina, onde a primeira coisa que fizeram foi enviar tropas, não ajuda.

 

Terramoto no Haiti: paraquedistas dos EUA sensíveis a expressões como ’força ocupante’ “Usem as armas nas costas, não à frente, foi o que pára-quedistas americanos que aguardam perto de Port-au-Prince disserem que lhes foi ordenado.” — Daily Telegraph, 19 de Janeiro de 2010

 

Também as Nações Unidas têm sido directamente cúmplices na negligência criminosa, não apenas porque alinhou nas desculpas arranjadas pelos EUA e outros sobre a demora na mobilização de ajuda, mas também porque elas mesmas têm milhares de tropas já a ocupar este território. Se há um país bem colocado para receber ajuda, ele é o Haiti. Mas claro que os que mandam no fornecimento da ajuda não estão interessados em saber como estão as coisas no terreno. A realidade é que há comida e água disponíveis no terreno, mas ninguém tem dinheiro para poder comprar. Assim, por falta de dinheiro, pessoas cujas vidas estão agora ainda mais despedaçadas do que anteriormente enfrentam o mesmíssimo problema, como se manterem vivas? Será então que não teria feito sentido despejar para lá dinheiro se o Ocidente estava tão preocupado com a ’pilhagem’ do povo haitiano? Por isso, não é deve surpreender ninguém que aqueles que têm vindo a explorar a ilha e o seu povo, e que os deixaram numa situação tão embaraçosa, e que são os mesmos que alegadamente vêm em seu auxílio, não se importem agora mais com o povo do Haiti do que no passado.

 

 

Texto de William Bowles publicado a 19 de Janeiro de 2010 em Creative-I. Tradução de Alexandre Leite para a Informação Alternativa.

 

Demora Ajuda Haiti

Cartoon de Dario Castillejos, El Imparical de México

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Terramoto no Haiti: Fabricado nos EUA

Porque está o sangue nas nossas mãos?

 

À medida que foram chegando os macabros relatos do terramoto no Haiti, as notícias nos meios de comunicação controlados pelos EUA todas traziam uma frase descritiva: "O Haiti é o país mais pobre do hemisfério Ocidental..."

Chiça, pergunto-me como é que isso terá acontecido?

Seria de imaginar que o Haiti fosse podre de rico. Afinal, fez a fortuna de muita gente.

Como é que o Haiti ficou tão pobre? Apesar de um século de colonialismo americano, ocupação, e apoio de ditadores corruptos? Mesmo tendo a CIA encenado golpes de estado contra todos os presidentes democraticamente eleitos que já tiveram?

É uma questão importante. Um terramoto não é só um terramoto. O mesmo simso de 7.0 em São Francisco (EUA) não mataria tantas pessoas como em Port-au-Prince.

"Olhando para as imagens, parece essencialmente que os edifícios são feitos de tijolos ou de blocos de cimento, e o que é preciso em zonas de terramotos são vigas de metal que unam os blocos para que eles se mantenham juntos quando há o sismo," nota Sandy Steacey, directora do Instituto de Investigação de Ciências Ambientais da Universidade do Ulster na Irlanda do Norte. "Num país próspero com boa construção anti-sísmica, haveria alguns danos, mas não muitos."

Quando um monte de blocos de cimento cai em cima de uma pessoa, as hipóteses de sobrevivência não são muitas. Mesmo que miraculosamente sobreviva, um país pobre como o Haiti não tem o equipamento, as infra-estruturas de comunicação ou o pessoal de serviço de emergência para retirar as pessoas dos escombros a tempo. E se os vizinhos a ajudarem a sair, não há ambulâncias para a levar para o hospital, ou médicos para a tratar quando lá chegar.

Favela Haiti

(Fotografia:REUTERS/Carlos Barria)



Os terramotos são acontecimentos aleatórios. A quantidade de pessoas que morre é pré-determinada. No Haiti, esta semana, não deitem as culpas para cima das placas tectónicas. Noventa e nove por cento das mortes podem ser atribuídas à pobreza.

Haiti Ruina
Cartoon de Simanca Osmani, Cagle Cartoons, Brasil

Por isso a questão é relevante. Como é que o Haiti se tornou pobre?

A história começa em 1910, quando o consórcio Departamento de Estado dos EUA - Banco Nacional da Cidade de Nova Iorque (agora chamado Citibank) comprou o Banco Nacional do Haiti – o único banco comercial do Haiti e o seu tesouro nacional - transferindo de facto as dívidas do Haiti para os americanos. Cinco anos depois, o Presidente Woodrow Wilson ordenou o envio de tropas para ocuparem o país de modo a deitarem um olho no “nosso” investimento.

De 1915 a 1934, os Marines dos EUA impuseram uma dura ocupação militar, assassinaram patriotas haitianos e desviaram 40 por cento do Produto Interno Bruto do Haiti para os banqueiros dos EUA. Os haitianos foram banidos de cargos governamentais. Haitianos ambiciosos foram colocados no exército fantoche, montando o cenário para uma ditadura de meio século apoiada pelos EUA.

Os EUA mantiveram o controlo das finanças do Haiti até 1947.

Sendo assim, de que se queixam os haitianos? Sim, nós roubámos 40 por cento da riqueza nacional do Haiti durante 32 anos. Mas deixámos 60 por cento para eles.

Choramingas.

Apesar de quase ter sido abafada pelos banqueiros e generais americanos, a desordem civil permaneceu até 1957, quando a CIA instalou o Presidente-Vitalício François "Papa Doc" Duvalier. Os brutais esquadrões paramilitares de Duvalier, os Tonton Macoutes, assassinaram pelo menos 30,000 haitianos e forçaram as pessoas com habilitações a fugirem para o exílio. Mas vejam isto como um copo meio cheio: menos pessoas na população significa menos competição pelos mesmos trabalhos!

Aquando da morte de Papa Doc em 1971, o testemunho foi passado ao seu filho de 19 anos ainda mais devasso, Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier. O esfriamento de relações dos EUA com Papa Doc nos seus últimos anos, rapidamente aqueceu com o seu herdeiro playboy cleptomaníaco. Enquanto os EUA despejaram armas e treinaram o seu exército como um suposto baluarte anti-comunista contra a Cuba de Castro, estima-se que Baby Doc tenha roubado entre 300 a 800 milhões de dólares do tesouro nacional, de acordo com a Transparency International. O dinheiro foi posto em contas pessoais na Suíça e noutros locais.

Sob a influência dos EUA, Baby Doc praticamente eliminou as taxas de importação de produtos dos EUA. Em pouco tempo o Haiti viu-se afogado em importações agrícolas predatórias despejadas por empresas americanas. Os produtores locais de arroz foram à falência. Uma nação que era auto-suficiente em termos agrícolas colapsou. As plantações foram abandonadas. Centenas de milhares de agricultores migraram para as atulhadas favelas de Port-au-Prince.

A era de Duvalier, 29 anos no total, chegou ao fim em 1986 quando o Presidente Ronald Reagan deu ordem às forças dos EUA para levarem rapidamente Baby Doc para o exílio na França, salvando-o de uma revolta popular.

Mais uma vez, os haitianos deveriam estar agradecidos aos americanos. O Duvalierismo foi um "amor à bruta." Forçar os haitianos a fazerem a sua vida sem o seu tesouro nacional foi uma forma simpática de os encorajar a trabalhar mais, de os levantar pelas orelhas...

E tem sido um amor à bruta desde sempre. Os EUA destituíram duas vezes o populista e popular presidente Jean-Bertrand Aristide, democraticamente eleito. Na segunda vez, em 2004, ainda lhe oferecemos um voo gratuito para a República Centro Africana! (Ele diz que a CIA o raptou, mas isso não interessa.) É que ele precisava de descansar. E foi simpático da nossa parte apoiar um novo governo formado por antigos Tonton Macoutes.

No entanto, apesar de tudo o que fizemos pelo Haiti, eles ainda são um estado falhado do  quarto mundo que fica perto de uma falha geológica.

E mesmo assim, nós não desistimos. Empresas americanas como a Disney pagam generosos salários de 28 cêntimos por hora.

O que mais querem estes ingratos?

 

Texto de Ted Rall publicado pela Common Dreams a 14 de Janeiro de 2010. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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