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Terça-feira, 18 de Junho de 2019

Tiananmen e Chernobil, do silêncio comunista ao espetáculo capitalista

Por estes dias temos assistido a um remember dos acontecimentos históricos sucedidos no mundo comunista do século XX: os protestos de Tiananmen e o acidente de Chernobil. Não é objetivo da minha reflexão discutir sobre a informação que dispomos daqueles acontecimentos e sobre a precisão ou não do nosso conhecimento. O que creio que sim vale a pena é observar a capacidade que tem o mundo  ocidental e a sua maquinaria de informação/entretenimento/ideológica de converter em atualidade acontecimentos passados quando lhe interessam, apresentar o formato mais atrativo da história e conseguir que a sua versão afaste qualquer discussão, debate ou investigação sobre os factos.

 

No assunto Tiananmen, o mais destacável é como, para o cidadão ocidental, o nome de uma praça aparece unido inevitavelmente a uns acontecimentos de protestos contra o governo comunista chinês. Diretamente, os meios de comunicação falam dos 30 anos de Tiananmen, os anos que passaram desde esses protestos, apesar de a praça ter uns quarenta anos mais. Ninguém pensa no massacre dos 300 estudantes em Tlatelolco quando os meios de comunicação referem esse local da cidade do México. De modo que Tiananmen é a praça de um massacre mas a praça das Três Culturas, onde aconteceu o massacre mexicano, é um complexo arquitetónico.

Um dos paradoxos dos protestos de Tiananmen é que a foto mais emblemática da repressão é precisamente um tanque que se imobiliza para não atropelar um manifestante. Ocorrem-me muitas mobilizações e protestos no mundo onde as forças da ordem não respeitaram um manifestante semelhante e não passaram à história por sangrentas repressões, como sucede com a praça chinesa. Desde o caracazo venezuelano ao massacre de El Mozote em El Salvador. E, claro, creio que há muitos muitos países onde não é preciso recuar 30 anos para encontrar repressão e massacres dos seus exércitos.

cartoon, Tiananmen

Cartoon de Paresh Nath, The Khaleej Times, UAE

O outro tema trazido à atualidade foi o acidente de Chernobil graças a uma série do canal de televisão HBO, com o mesmo nome. Tal como com os acontecimentos de Tiananmen, Chernobil sofreu por parte das autoridades comunistas um grande secretismo, o que permitiu ao ocidente fazer as suas próprias interpretações e manejar os dados que considerou oportunos. Para começar, no que diz respeito ao número de vítimas que, em ambos os casos, a amplitude é muita. No caso do acidente nuclear, porque o cálculo supõe não só as mortes pelo acidente, apenas umas dezenas, mas também os falecidos em consequência das radiações recebidas.

Chernobil, cartoon, chernobyl

Cartoon de Christo Komarnitski, Bulgaria

O que é evidente é que as lacunas sobre o que aconteceu, o secretismo que rodeou a tragédia, característico de uma guerra fria que ainda se fazia sentir, e a estigmatização do governo comunista de então, eram ingredientes estupendos para um produto audiovisual com o formato de ficção em vez do de documentário. Não é minha intenção justificar nem branquear as responsabilidades daqueles governos, vou limitar-me a suspeitar da oportunidade de tanta insistência e da forma como é feita. Que uma série de ficção, com cenas dramatizadas, com alguns personagens criados especialmente para a série (a física bielorrussa Ulana Khomyuk), sem oferecer fontes rigorosas, nem documentação, seja a via principal de conhecimento do acidente de Chernobil para a população ocidental de hoje, não implica nenhum avanço de aproximação à verdade. Não se pode compreender que a única pessoa que se preocupasse em investigar o motivo do desastre fosse uma física da república vizinha da Bielorrússia, que fosse a Chernobil por sua conta para entrevistar os técnicos moribundos no hospital. E que, ainda por cima, terminasse detida pelo KGB. O lógico é que o próprio estado soviético, ainda que não tivesse nenhuma intenção de transparência, tentasse saber o que se tinha passado. Poderão argumentar que isto é só uma série, que não pretendem apresentar-se como investigadores e reveladores de uma verdade, mas isso é irrelevante, a realidade é que "documentação" que os cidadãos terão sobre aqueles acontecimentos será a história que viram no canal HBO.

Um dos princípios éticos do jornalismo televisivo é renunciar à dramatização das notícias, isto é, não contar uma violação ou um assalto a um banco mediante uma teatralização de atores, pelo que isso implica  de manipulação da emoção das audiências. Imaginem a reação de uns espectadores perante um acusado de violação e assassinato se, na informação sobre o julgamento, se exibe a dramatização desse crime com todo o tipo de detalhes, sangue, terror da vítima e maldade nos gestos do assassino. Pois isso é a série de Chernobil. Nela, a intencionalidade é cuidada ao milímetro sem importar o rigor. Até a responsável pelo vestuário, Odile Dicks-Mireaux, reconheceu que o realizador, Johan Renck, "deu a diretriz de que queria que fosse um vestuário feio". E reconhece tranquilamente que na série “acrescentaram alguma decadência” e "a roupa é mais da URSS do que a de então em Pripyat, onde se viam calças de ganga, sapatos coloridos e roupa que ia chegando do estrangeiro”. Se era preciso projetar uma imagem decrépita do comunismo, então fez-se isso. Poucos deram conta, e muitos menos se recordam, que no filme As vidas dos outros, a cor torna-se alegre e brilhante ou sórdida e apagada conforme as imagens correspondem aos dissidentes ou às autoridades, conforme se esteja na Alemanha Ocidental ou na Oriental.

Em qualquer dos filmes americanos que estamos habituados a ver, os que sacrificam a sua vida ou a colocam em perigo para salvar outros, são apresentados como heróis. Pelo contrário, esses mesmos, na série do HBO são mostrados como se fossem levados pela direção soviética para o matadouro. Militares, polícias, bombeiros e médicos morrem todos os anos em muitos países do mundo cumprindo o seu trabalho obedecendo a ordens superiores e, em última instância, aos seus governos. No entanto, na série Chernobil são apresentados como enganados e empurrados pelo governo comunista. Muitos deles eram profissionais que conheciam bem o risco, dificilmente podiam ser enganados, sem dúvida foi o seu sentido de solidariedade que os motivou, como se pode apreciar nalguns momentos da série. Apesar disso, essas decisões heróicas e voluntárias aparecem encenadas precedidas de miseráveis tentativas de engano por parte do governo.

Se a alternativa ao ocultismo soviético é o espetáculo ocidental de uma série de ficção, a única coisa que fica demonstrada é uma maior inteligência para pastorear os cidadãos de uns do que os outros. É paradoxal que  que aqueles que no seu desenlace final do último capítulo da série, fazem do rigor científico e da verdade um baluarte, sejam os mesmos que criam uma série de ficção audiovisual sem aval científico nem documental. A frivolidade e o espetáculo imperante no ocidente faz crer que um produto televisivo de ficção nos vai dar lições de história e veracidade científica. Se o governo soviético teve um comportamento desajeitado acreditando que com o silêncio e a mentira podiam enganar um povo, o do ocidente tem uma brilhante atuação de espetacularidade que pretende substituir aquele silêncio e mentira por exibição e entretenimento recorrendo a todos os recursos narrativos necessários desde que o resultado seja atrativo para os espectadores. E o que é pior, dando lições de cátedra sobre o valor do rigor e da verdade.

 

Obviamente, uma boa narrativa requer que se eliminem as partes que não interessam. A URSS não deixou nunca de homenagear os liquidadores, todas as pessoas que se expuseram para paliar os efeitos do desastre. Os diferentes monumentos erguidos mostram que não houve intenção de esquecer o sucedido. E também não se ficou pelas meras homenagens, há uns anos um bombeiro ucraniano ucraniano denunciava que  "quando existia a União Soviética, cuidavam de nós, curavam-nos, preocupavam-se connosco. Agora os governos esqueceram-nos". Teria sido um bom final para a série, procurar mostrar como são vistos hoje esses heróis, já "libertados do jugo soviético".

Também poderiam ter investigado onde foram recebidos e assistidos, durante anos, os afetados pela radiação e contar que, depois da queda da URSS, 26 mil pessoas foram a Cuba, um governo que continuava a ser comunista, para receberem tratamento médico gratuito.

Mas contar tudo isto implicaria visitar agora os locais, recolher testemunhos e declarações e o resultado seria um rigoroso documentário em vez de uma atrativa série de televisão com efeitos especiais e dramas ficcionados. Demasiado aborrecido para a nossa sociedade do espetáculo.


Texto de Pascual Serrano publicado a 11 de junho de 2019 no El Diario. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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